OBJETOS EM DESCONSTRUÇÃO

OBJETOS EM DESCONSTRUÇÃO
(Cleusa Piovesan)

Mulheres
Objetos em tempo integral
É o corte de cabelo
Curto não
Corte e perca o namorado
Que bênção
Livre-se de um machista
Pinte o cabelo
Vire prostituta
Mesmo que seja virgem
Faça tatuagem
Vire bandida
Nunca matou nem as moscas
Nem roubou o sonho na padaria
Mas tem tarja
Até a chamam de código de barras
E o código de conduta?
Ninguém nunca quis saber
Já vem lacrada
Pré-julgada
Um veredicto amoral
Inferiorizada
Foi assediada?
Ah, provocou, claro
Uma cueca não tem grades
Sua (im) potência salta
Macho-alfa em ação
Um decote é chamariz
Seus olhos comem os corpos
Um shortinho é um convite
Convite à liberdade
Não ao seu impulso
Seu instinto animal ataca
São vítimas?
Não, são culpadas
Quem mandou andar quase nua?
Sua imoralidade despe todas
Usou e lambuzou
Fechou o zíper
Saiu ileso
A vergonha é delas
O pecado é delas
O silêncio também
Sentem-se um pedaço de carne
Uma gazela desprotegida
Eles, leões famintos
Seu bote marcou tantas vidas
Continuam suas caçadas
Logo, novos alvos
Alvos negros, vermelhos ou amarelos?
Sem cor
Vidas desbotadas pela violação
Violência legitimada
Tentáculos do patriarcado
Até quando?
Até quando a sociedade
For dominada por regras
Sem equidade
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Cleusa Piovesan – Doutoranda em Letras, Mestra em Letras, com graduação em Letras – Português/Inglês e em Pedagogia; organizadora de dois livros com alunos, e 12 obras de autoria própria; tem participação em mais de 50 antologias e coletâneas; é Acadêmica do Centro de Letras do Paraná, da Academia Brasileira de Letras e Artes Minimalistas, da Associação Brasileira de Poetas Spinaístas, e do Centro de Letras de Francisco Beltrão.