FALANDO SOZINHO

FALANDO SOZINHO
(Luiz Silva)

Sozinho em casa. Coube-me fazer uma reunião com os objetos da casa. Desejar uma feliz mudança de ano e não de endereço, desta vez. O Som tocava uma música, “eu ti ouço calado, como quem ouve uma sinfonia”. A TV tinha um certo ar de intelectualidade já que estava num canal público, mas como antes passou por um outro canal, estava viciada. O Fogão me ofereceu um café, do forte, e eu disse “sim”. A Geladeira me lembrou Vinícius de Morais, mas o que pôde oferecer foi uma cerveja e eu disse “não”, pelo menos naquele momento. A Mesa e o Sofá, colocaram-se à disposição para qualquer coisa que eu precisasse. A Cama, safada, lembrou que esperava mais uma noite comigo. O Violão sabe que não tenho dom para a música, mas, sabe que dedicação é importante. Lembrou Raul “não diga que a canção está perdida, tenha fé em Deus tenha fé na vida, tente outra vez”. Legal foi o Computador, que me sugeriu uma série de sites com livros e jornais, vídeoaulas de música e muito mais. Recebeu aval do celular. A Guitarra me convidou para tocar algo da Legião Urbana. O Micro-ondas ponderou que nem só de acordes viverá o homem. A Máquina de lavar, e a Pia mantiveram-se em silêncio. Agora o Som tocava, “nada do que foi será, do jeito que já foi um dia”. E eu, comigo, pensei, “que solidão, que nada, você vem na hora errada, em que eu não te quero aqui.”
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Luiz Silva nasceu em 1976, em Francisco Beltrão (PR). É servidor público, trabalha na Prefeitura Municipal de Francisco Beltrão. É integrante do Centro de Letras de Francisco Beltrão. Participou das coletâneas Trincas que me Trincam, (2020) e Pratas da Casa (2023). Colunista da coluna Hemera, publicada no Jornal Opinião, desde 2025. É apaixonado por música, por literatura e por filosofia, mas sua maior paixão é a tecnologia. Não por acaso, grande parte de sua produção literária é repleta de figuras de linguagem que remetem à linguagem da informática.