A VIAGEM
A VIAGEM
(Luiz Silva)
Naquele contexto, o território era o ônibus. Idioma, um quase silêncio. Moeda corrente, o bilhete de passagem. População, 42 pessoas, mais aquele “sempre no controle de tudo”.
A mulher que dormia ao meu lado, naquela noite, era uma desconhecida. E dormia literalmente. Talvez preocupada com quem deixou em casa, com a bagagem que levava, ou talvez, estivesse tão cansada que nem conseguia pensar nessas coisas.
No celular, alguém falando em linguagem não convencional, o que passava ideia de estar tratando de algo ilícito. Alguém saindo do banheiro espirrando, ‘” ah esse ar condicionado, ou não!”. Enquanto isso, eu ouvia muitas músicas falando da metáfora da viagem, da estrada, da brevidade do tempo e é claro algumas sequências de acordes marcantes. Depois, preenchia o tempo com ebook.
A entrada e saída das pessoas me fez lembrar daquela ideia recorrente no mercado de trabalho “ninguém é insubstituível”. No contexto, éramos todos anônimos como numa metrópole, e como diria Frejath “íntimos e estranhos”. Eu mesmo pensava que assim que chegasse ao destino, ninguém lembraria que estive ali, não saberiam das canções e dos poemas que mexiam com minha mente, nem das minhas reflexões, e nem que surgiria uma crônica desse momento, algumas horas depois de ter chegado.
Música, viagem, saudade… essas coisas deslocam minhas emoções!
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Luiz Silva nasceu em 1976, em Francisco Beltrão (PR). É servidor público, trabalha na Prefeitura Municipal de Francisco Beltrão. É integrante do Centro de Letras de Francisco Beltrão. Participou das coletâneas Trincas que me Trincam, (2020) e Pratas da Casa (2023). Colunista da coluna Hemera, publicada no Jornal Opinião, desde 2025. É apaixonado por música, por literatura e por filosofia, mas sua maior paixão é a tecnologia. Não por acaso, grande parte de sua produção literária é repleta de figuras de linguagem que remetem à linguagem da informática.
