ANTES DO SOL NASCER
ANTES DO SOL NASCER
(Theresinha Acco)
Houve um tempo em que minha janela se abria para uma colina, chamada Porto Feliz. Ao sopé, um rio de águas límpidas corria como se quisesse embalar o silêncio do tempo. Nos dias de céu claro, eu me debruçava sobre o parapeito e ficava ali, perdida no horizonte a observar à distância, as aves que flutuavam suspensas no ar, como se o mundo à sua volta não existisse.
Entre pardais e canários, uma delas, um tucano, de vez em quando, antes do sol nascer, surgia no quintal da minha casa. Quando eu me dava conta, o sol já ia marcando o avanço do dia, enquanto eu ainda me perdia na beleza tranquila daquele instante.
Eu me encantava com o tucano, com seu bico colorido, de cor vibrante e com suas penas também coloridas, como se fosse uma pincelada de um artista que capturasse as cores, na beleza dos sete tons do arco-íris. Imaginava tocá-lo com as mãos, como se aquele momento fosse único e mágico. Eu era criança, e o simples fato de observar aquela ave me fascinava de uma forma pura.
O tempo parecia parar sempre que o tucano aparecia. Eu ficava ali, imóvel, como se tivéssemos um segredo compartilhado entre mim e ele.
Com o passar dos dias, os momentos em que ele surgia se tornaram mais intensos, mais esperados, parecia trazer consigo não apenas uma sensação única, mas também uma nova descoberta, encantadora. Às vezes, ele ficava ali por mais tempo, e eu, permanecia na janela nada confortável, mas repleta, de uma felicidade silenciosa.
Sentia que o mundo se preenchia com um colorido especial, como se o tucano, com suas cores estivesse ali, a pintar minh’alma. Quando ele alçava voo, sua partida deixava o ar denso, parecia que suas asas levavam todo o peso do mundo. Lembrava da minha avó, quando dizia: “passarinho que carrega dores, fica com as asas pesadas”.
E, por onde passava, o tucano deixava um rastro de sombras, como que, um vestígio de saudades a pairar no ar. Naquele instante, minha intuição também alçava voo e, eu permanecia ali, com os olhos fixos no céu, tentando segurar com as mãos a sensação da sua presença.
Em vasta planície, onde o verde se confundia com a imensidão do infinito, ventos gélidos sopravam com força. Imersa naquele cenário, eu tentava imaginar uma ponte ligando a terra ao céu. Naquele tempo, acreditava que, ao fitar o horizonte, poderia ser transportada a lugares distantes, onde até o impossível poderia acontecer.
O tucano não era apenas uma ave, ele era o mensageiro da minha imaginação, um símbolo de liberdade: Voar!
Mas, mesmo diante desse cenário encantador, por vezes a janela se fechava, era como se a realidade impusesse seus limites, quebrando a magia do momento. A vida, com suas demandas e responsabilidades, começava a ocupar o espaço que antes era livre, o tempo que parecia suspenso cedia lugar às urgências do cotidiano.
A janela, antes aberta para o infinito, se tornava uma barreira, e, lá fora o tucano, com suas cores vibrantes, já não surgia com tanta frequência. O mundo das florestas, também mandava sinais, sobre o risco iminente da sobrevivência da espécie.
Para dentro da janela, as asas da liberdade ficaram mais distantes, e eu sentia, de alguma forma, que a infância estava indo embora, levando consigo aquele encantamento simples e puro. No entanto, algo do tucano permanece em mim. Ele não era apenas uma ave que aparecia e sumia, mas uma memória guardada no peito, um símbolo de esperança.
O tucano, com sua beleza e sua graça, me ensinou que, às vezes, as asas não precisam de céu para voar – elas existem dentro de nós, aguardando o momento certo para alçar voo. E, assim, aquele tempo de janela aberta e de sonho contínuo permanece comigo, sempre, como uma memória de um tempo presente que ainda está ali, junto a mim.
O tucano, com sua calma e com seus tons vibrantes, simboliza não só a liberdade que buscamos, mas também a capacidade de, mesmo diante das limitações da vida, encontrar formas de transcender, e ir além. . Ele, com seu voo silencioso, lembra que o que importa não é o destino, mas a capacidade de voar, de sonhar e de manter viva a chama da esperança, mesmo quando os ventos frios da montanha nos desafiam. A janela da infância pode ter ficado distante, mas o horizonte permanece, sempre ao alcance dos olhos da minh’alma, mesmo quando as janelas se fecham.
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Theresinha Acco é escritora, poeta e cronista, nascida no Rio Grande do Sul e residente entre Palmas e Francisco Beltrão, Paraná. Graduada em Língua Portuguesa e Inglesa, com pós-graduação em Língua Portuguesa, Educação e Comunicação. Atuou no magistério superior e na rede pública de ensino.
Autora de poemas, contos e crônicas publicados no Brasil e no exterior, teve o texto “Carta ao Papa Francisco” destacado no Vatican News, Cidade do Vaticano.
É membro da APAL – Academia Palmense de Letras e do Centro de Letras de Francisco Beltrão.
