VOZES SEM VEZ

VOZES SEM VEZ
(Cleusa Piovesan)

Quando sei o meu lugar,
De um ponto de observação
Vejo aquilo que eu quiser,
E com minha luta-mulher
Observo, sinto e escrevo,
Revolta-me o que percebo:
A voz que já não tem vez
Zune ecos em meus ouvidos
E um brado, um alarido
Voraz, vem arrebatar, talvez…

E ouço as vozes de outrora
Que se calaram antes da hora
Ou que apenas foram caladas
Por tiros na madrugada,
Ou por emboscadas vis
Já não são mais varonis,
Retumbantes a bradar,
Clamando justiça e honra,
Num mundo de atrocidades
Que lhes tentou silenciar.

São vozes de mortos-vivos
Mandela, Gandhi, Zumbi
Que insistem em ecoar…
São essas vozes do além
Que repercutem discursos,
E incitam o povo a lutar
Contra todos os abusos
E as estratégias do poder
De silenciar multidões,
Com golpes e o que mais puder.

E muito mais do que vozes
São ícones de resistência,
Luther King, Madre Tereza,
Na luta contra a opressão
E a levantar a bandeira
Que desfralda os ideais
E grita: direitos iguais!
Não só de raça e de credo;
De gênero, de classes sociais,
Sob a égide do medo.

Malala, a paquistanesa,
Ativista ainda menina,
O manifestante em Pequim
Que para um tanque de guerra
E tantos que enfrentaram feras
Em busca de seus direitos.
Chega a me doer no peito
Ver essas vozes esquecidas.
E suas lutas pela vida?
Terão sido uma quimera?

E há tantos nomes anônimos
De heróis, não de ficção,
Morrendo dia após dia
No Brasil das periferias
Com fome, prostituição,
Tráfico de armas e drogas,
À margem de uma nação
Que nasceu tão gloriosa
Entregue a mercenários
Vestidos de bata e toga.

Não é um reality show,
É a realidade indigesta,
Que, enquanto uns fazem festa
Com o dinheiro dos impostos,
Governam em favor próprio,
Temos os heróis sem rosto
Lutando pela sobrevivência.
Na bela nação tupiniquim,
Com gritos, brados, clarins,
Contra a lei da subserviência.

Observo, indignada, o povo
Que maquia essa indecência.
Maquia com a ignorância
De seguir em marcha insana,
De iludir-se com promessas,
De abraçar causas vazias,
Para, ao raiar do dia
Ser traído, apunhalado,
Por quem jurou protegê-lo
E tornou-se o seu flagelo.

Nem greve ou intervenção
Trará o “salvador da pátria”
Se a sociedade, ignara
Alienada, sem ter rumo
Não aprender a pensar
E com a História aprender
Pois em jogos de poder
Quem não tem conhecimento
Acaba saindo do prumo
Torna-se só um instrumento

Poema publicado, em 2018, na Antologia Poesia Agora, edição Inverno, sob o ISBN 978-85-69577-72-0, pela Editora Benfazeja.
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Cleusa Piovesan – Doutoranda em Letras, Mestra em Letras, com graduação em Letras – Português/Inglês e em Pedagogia; organizadora de dois livros com alunos, e 12 obras de autoria própria; tem participação em mais de 50 antologias e coletâneas; é Acadêmica do Centro de Letras do Paraná, da Academia Brasileira de Letras e Artes Minimalistas, da Associação Brasileira de Poetas Spinaístas, e do Centro de Letras de Francisco Beltrão.