INVOCAÇÃO
INVOCAÇÃO
(Cleusa Piovesan)
Ah, “ridículas” cartas de amor que escrevi
Foram poucas, foram sinceras
Ridículas em sua inocência
Ridículas por serem melodramáticas
Ridículas por revelarem meu avesso
Ridículas por rasgarem meu coração
Ridículas por sangrarem sentimentos
Mais ridículas por não terem destinatários
Pessoa torna ridículo o amor idílico
Já eu vos digo: todo amor é ridículo
Racionalmente ninguém o viveria
Não saberia seu cheiro ou sabor
Se ocre ou dulcíssimo, inodoro
Nem saberia que há coração que palpita
Às vezes bate; outras, apanha
Só o amor ridículo nos faz vivê-lo
Traz conciliação de paradoxos
É o tal “fogo que arde sem se ver”
Com labaredas de emoções conflituosas
É aventura incógnita que…
Se houvesse resolução, ah…
Deixaria de provocar encantamento
E a vida seria uma ridícula passagem
Em um trem para o inferno interior
Num túnel que desemboca num precipício
Ah, Senhor, dá-me o dom de ser ridículo
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Cleusa Piovesan – Doutoranda em Letras, Mestra em Letras, com graduação em Letras – Português/Inglês e em Pedagogia; organizadora de dois livros com alunos, e 12 obras de autoria própria; tem participação em mais de 50 antologias e coletâneas; é Acadêmica do Centro de Letras do Paraná, da Academia Brasileira de Letras e Artes Minimalistas, da Associação Brasileira de Poetas Spinaístas, e do Centro de Letras de Francisco Beltrão.
