SONHAR
SONHAR
(Theresinha Acco)
Sonhar para Ami era um doce desassossego. Algo quase mágico, indizível, que a envolvia com a delicadeza de um abraço invisível desses com a ternura que parece chegar do céu.
Desde menina, o sonho a acompanhava. Nos dias claros, debruçada no parapeito da janela, Ami contemplava o horizonte e acreditava que, ali, onde a vista não alcançava, começava a verdadeira inquietude: sonhar.
Sim, sonhar é movimento. É esperança que caminha, magia que encanta, é a ousadia tranquila de acreditar no inatingível.
Nascera no Sul, no tempo em que as folhas se desprendem dos galhos e a natureza aprende a ir mais devagar, entregue à contemplação e à transição, mas foi na Terra da gralha-azul e das araucárias que firmou seus primeiros passos…
Ami, vinha de um tempo de cantigas de ninar, de brincadeiras de roda e de amarelinhas colorindo o chão. De um tempo em que o lampião a querosene clareava as noites, a serraria girava pela força da roda d’água, e o monjolo batia compassado no quintal. Ao pé da serra, como um suspiro de fé, erguia-se a igrejinha, tingida cor do azul do céu em dias de tempestade, onde ela rezava aos domingos e dias santos de guarda.
Véu na cabeça, cabelos trançados e brilhantes, pele bem ariada. Vestidos alisados ao ferro à brasa, sapatinhos de verniz a compor a cena. Escola, sob os cuidados atentos das religiosas. Orações constantes na pequena capela do colégio. O tempo parecia não passar. Estacionava em cada estação. E o inverno, sobretudo, era intenso, demorado, quase eterno.
No verão às noites de luar, Giuseppe seu pai, dedilhava o cavaquinho e entoava canções em italiano, que, nostálgicas, contracenavam junto ao clarão prateado do céu. A família se reunia na varanda todas as noites: primeiro a reza do terço, todos ajoelhados, cotovelos apoiados nas cadeiras de palha trançada.
Depois, Giuseppe lia para os parentes, longas cartas que chegavam do Sul. Relia-as muitas vezes, como quem repete um ritual sagrado. Às palavras escritas, via-se a saudade desfilar molhada nos olhos, estampada nos rostos, sustentada na dor que cada face podia conter.
Mas o tempo passou, e com ele surgiram novas janelas, não mais de madeira, com parapeitos gastos pelo sol, mas de vidro, refletindo rostos e caminhos. Ainda assim, em cada transparência, ela buscava o horizonte, como quem procura, ao longe, resposta delicada a um apelo.
A menina dos sonhos cresceu, mas não perdeu a inquietude, apenas a vestiu de novas cores. Agora, sonhava com caminhos ainda ocultos, com rostos que o destino haveria de apresentar, com momentos etéreos. Sonhava com o amor eterno. Nessa travessia, enfim, descobriu que sonhar, acima de tudo é alimento para a alma.
Então, o sonho se fez companheiro de jornada, sombra nos dias quentes, canto nas longas madrugadas. Força serena quando tudo parecia silêncio. Presença, luz iluminada. Poesia vivida, mas não declamada.
Assim, o sonho persistia, firme como chama, que o tempo não apaga. Porque o tempo, ainda que apresse os passos, não consegue ocultar o que é eterno.
Agora, já não era o mesmo sonho da infância, cheio de curiosidade e horizontes distantes, mas um sonho mais sereno, amadurecido: o de encontrar a paz.
Antes, queria realizar projetos guardados em silêncios antigos, dar corpo às ideias que um dia apenas a visitaram como relâmpagos…,mas, agora, preferiu se deixar encantar pelas sutilezas da vida: uma estradinha irregular entre um bosque no seu ocaso. O voo inesperado de um pássaro. A luz que repousa sobre a serra ao entardecer. A voz mansa que chega e aquece à solidão. O abraço terno a eternizar um instante numa tarde luminosa de agosto. A doçura do olhar azul em dias de sol ameno. E, do Sul, a chegada imprevista que meiga inquieta sentimentos e inspira presentes. Uma janela aberta em dias não esperados, ou em dias de rotina calma, anunciando presença…
Ami, passou a acreditar, que cada pessoa carrega dons escondidos, talentos silenciosos, que quando despertos podem tornar o mundo mais humano. E esse acreditar lhe dava forças.
Assim, sonhar já não era apenas inquietação de menina, mas a sabedoria de quem aprendeu que Deus se aproxima quando o coração em silêncio, insiste em esperá-Lo. Que a alma é abraçada por um gesto simples de ternura, vindo sem aviso. Que quem nos machuca também pode nos amar, e às vezes fere por um descuido. E que as lágrimas se deixam enxugar com um afeto singelo, mesmo quando chega à distância…
E, ao perceber-se inteira diante da vida, compreendeu enfim, que o maior dos sonhos não era chegar, mas permanecer. Porque sonhar, em sua essência, sempre fora o modo mais belo de existir. Sempre sonhar!
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Theresinha Acco é escritora, poeta e cronista, nascida no Rio Grande do Sul e residente entre Palmas e Francisco Beltrão, Paraná. Graduada em Língua Portuguesa e Inglesa, com pós-graduação em Língua Portuguesa, Educação e Comunicação. Atuou no magistério superior e na rede pública de ensino.
Autora de poemas, contos e crônicas publicados no Brasil e no exterior, teve o texto “Carta ao Papa Francisco” destacado no Vatican News, Cidade do Vaticano. É membro da APAL – Academia Palmense de Letras e do Centro de Letras de Francisco Beltrão.
