CONSCIÊNCIA BRANCA

CONSCIÊNCIA BRANCA
(Cleusa Piovesan)

Minha consciência negra é branca,
ignóbil, sempre limpa,
e espanca, mentalmente,
com o estalo do chicote do tempo
cada negro, ou mulato que encontra.

Até já perdeu a conta,
de quantos olhares vis,
dos brancos sorrisos falsos,
de quantos apertos de mão,
da piedade que não sente,
de quantos açoites deu
ao fingir-se, dissimular
para a lei agradar.

Ah, politicamente,
e desumanamente correto.
Consciência apagada
para não ser discriminada.
Que igualdade, que nada!

Negro sempre será cativo,
do passado que carrega
como fardo até a moega.
Carrega sangue no olhar,
Baixa a cabeça, sem chorar,
e consente em ser explorado,
se o grito da alma fica calado.

Calma, diz minha alma branca,
estou sentindo um lampejo,
mas já me volta o pejo,
tão alvo como o luar
em noites de lua cheia
e ofusca, embota
a consciência que brota
e morre, inconsciente,
lentamente, pálida…
E, claramente, atrofia-se,
oculta-se, já não sente.
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Cleusa Piovesan – Doutoranda em Letras, Mestra em Letras, com graduação em Letras – Português/Inglês e em Pedagogia; organizadora de dois livros com alunos, e 12 obras de autoria própria; tem participação em mais de 50 antologias e coletâneas; é Acadêmica do Centro de Letras do Paraná, da Academia Brasileira de Letras e Artes Minimalistas, da Associação Brasileira de Poetas Spinaístas, e do Centro de Letras de Francisco Beltrão.