PERGUNTE AO LIXO

PERGUNTE AO LIXO
(Luiz Silva)

Era fim de tarde. Ainda impactado com a leitura de duas obras de John Fante, saí para jogar o lixo.
Ocorreu-me que aquele lixo, seja como for, teria um destino. E eu? Pensei no fato de que no mundo dos lixos, não há hierarquia, senso de poder, patriotismo ou religião. Bateu uma sensação estranha.
Pensei no bar. Talvez não fosse a coisa mais inteligente, mas, nem sempre inteligência significa alguma coisa.
A esquina me fez pensar em escolhas. No caminho, pessoas vistas como “lixo social”. Os outsiders.
Enquanto tomava uma dose, veio-me à mente Charles Bukowski.
Atento ao contexto, produzi mentalmente uma espécie de síntese das pessoas que ali estavam e suas prováveis histórias.

O COPO

Num vazio de fim de tarde,
Um copo cheio,
Num balcão de sonhos,
Um silêncio profundo,
Uma vida andando em círculos.

A noite parece completa.
O copo vazio.
Um balcão risonho.
Um gosto de solidão.
Quanto custa um gole de “felicidade”?

Pedi mais uma dose. Me senti o escritor. Como se eu fosse uma espécie de Arturo Bandini. Apareceu por ali, até uma versão de Camila, personagem do romance “Pergunte Ao Pó”.
Quando voltei para casa, a ideia do lixo me seguiu. Pensei em valores, dignidade, sonhos. Por que isso tudo se perde? Para onde vai?
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Luiz Silva nasceu em 1976, em Francisco Beltrão (PR). É servidor público, trabalha na Prefeitura Municipal de Francisco Beltrão. É integrante do Centro de Letras de Francisco Beltrão. Participou das coletâneas Trincas que me Trincam, (2020) e Pratas da Casa (2023). Colunista da coluna Hemera, publicada no Jornal Opinião, desde 2025. É apaixonado por música, por literatura e por filosofia, mas sua maior paixão é a tecnologia. Não por acaso, grande parte de sua produção literária é repleta de figuras de linguagem que remetem à linguagem da informática.